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Elegias do Fim do Mundo, Fernanda Scheffler.

Neste especial de Halloween, trouxe a vocês - com autorização de Fernanda Scheffler, Diretora Administrativa da Revista Entrelinhas - um de seus contos e como o tema é sobre mistério e suspense pensamos que talvez vocês possam gostar de ter esta experiência.

Para você que quer conhecer mais o trabalho de Fernanda acesse sua conta no WattPad clicando aqui.



Aquele dia de chuva enganaria qualquer um que pensasse que seria só mais um dia. Ou, talvez, de fato fosse. Para muitos foi um dia perfeito para esticar as pernas sobre o tampo da mesinha de centro e assistir a um programa qualquer na televisão. O domingo daquele inverno estava aconchegante e ao mesmo tempo brilhante. As nuvens cinzentas flutuando na abóbada refletiam a luz do sol que se escondia sobre elas e funcionavam como espelhos para aquele som de sinos que ecoava de algum lugar da Alameda Andrade.
As outras crianças estavam alvoroçadas e provavelmente batiam os pés nas portas dos átrios. A pirraça infantil era uma exigência pouco sutil, pois queriam, assim como eu, ir ao circo. Nunca soubemos como ele chegou naquela cidadezinha flutuante às margens do Atlântico, só sabíamos que o vai e vem da água negra os trouxe até Lyonesse.
A Praça Circular fora cedida para que fincassem as toras e erguessem aquela grande tenda listrada e colorida. Depois foram as bandeirinhas e as barracas de doces, espalhadas pela trilha que entrecortava a praça. Nada me chamou mais a atenção do que aquele teatrinho de papel, esquecido entre duas árvores esparsas, pouco distante de um palhaço icônico que distribuía balões e sorrisos.
— Não se afaste muito, Ben — salientou meu pai, pouco satisfeito com o passeio. — Vamos nos encontrar em uma hora aqui neste mesmo lugar, próximo aos balões. Esteja aqui, ouviu?
Assenti com a cabeça diante de seu tom imperativo, virando as costas e seguindo sem olhar pra trás. Sentia seu olhar pousando sobre mim e quase que por mágica ecoava no meu ouvido as palavras traiçoeiras que ele diria assim que voltássemos para casa.
O álcool o transformava em outro homem, ou, talvez, o revelasse. Minha mãe já não se importava com a bebida ou com as agressões; por vezes vi seu sorriso de prazer quando era puxada pelos cabelos e recebia palmadas enquanto despida. Transformou a dor e o medo em uma forma de sentir prazer, já que não tinha outra escolha.
Na trilha de pedras descoloridas passavam crianças para lá e para cá, algumas em grupo, de mãos dadas com os irmãos ou com os pais, e outras sozinhas. Não se divertiam menos, mas eu conseguia ver uma confusão reveladora que, de alguma forma, as carregavam até o teatro. Sentavam na relva com as pernas cruzadas e ouviam o que aquele homem apático dizia. O velho mal abria a boca para falar; seus lábios cansados se moviam lentamente enquanto suas mãos giravam uma alavanca de madeira. Daí as figuras de papel se moviam na tela uma melodia baixa ressoava.
Constrangido, eu ficava distante os vigiando, suspenso atrás de uma árvore. Sem motivo aparente, um dos meninos girou o pescoço e olhou discretamente para mim. Sorriu. Seu olhar de acalento me enfeitiçou de uma maneira incomum e quando vi estava sentado ao seu lado, mas meus olhos estavam pregados nas figuras dançantes.
A voz tímida do velho tinha como plano de fundo aquele sino circense que chamava a cidade para a praça. Ele contava a história de um homem muito bom que, acometido pelo mal do ciúme, perdeu-se no mundo, vagando atrás de alguém que pudesse quebrar sua maldição. Certo dia encontrou uma cigana misteriosa que roubou seu coração, agora dividido entre o ciúme e o amor. A mulher não o amou como ele imaginava que amaria e, por isso, o ciúme novamente tomou conta do homem bom, que, possuído por um demônio, devorou a cigana.
— Então o homem bom não era bom? — questionou uma criança sentada na fileira ao lado. — Ele fez mal a alguém inocente, então não pode ser um homem bom de verdade.
— E por que não? — replicou o velho, sorrindo cinicamente. — Um homem que faz o bem a todos, mas se encontra perdido num de seus defeitos puramente humanos ainda assim é bom, apenas imperfeito.
— E o que aconteceu depois? — perguntei.
— Por que você mesmo não pergunta ao homem? Acreditem se quiser, mas ele existe e mora aqui. É provável que algum de vocês já o tenham visto no mercado ou do outro lado da calçada.
As crianças se entreolharam e se ergueram junto com o velho. Ele empurrava a caixa do teatro de papel enquanto girava a alavanca gasta, desaparecendo atrás de uma árvore sufocada por liana. Eu ouvia apenas uma melodia e o seu cantarolar funesto. As cinco crianças seguiram o caminho em fila e apenas o menino dos olhos brilhantes e eu restamos.
— E você? Não vai? — perguntou; dei de ombros como resposta, desviando o olhar. — Está com medo?
O tom carinhoso do menino se converteu em um ar de superioridade e zombaria. Bufei e trespassei seu caminho. Lá na frente as outras crianças saltavam alguns galhos e coçavam pernas e braços devido às daninhas que encontravam. Às vezes subiam em banquinhos de pedra e saltavam, e suas risadas infantis se uniam à música enlouquecedora.
Eu já não sabia mais onde estava e não conseguia ouvir os sinos do circo. Saímos do bosque e cessamos o caminho em uma rua deserta onde uma bruma cinza sobrevoava o asfalto. Uma placa na curva mais próxima me indicava: rua Oliveira. De qualquer forma, não fazia diferença saber o nome daquela rua, pois ainda não sabia onde estava.
O homem cessou o caminho em frente a uma cerca viva. Mal percebemos ser um portão de metal, que foi entreaberto com facilidade para que pudéssemos adentrar o local. No fim do jardim de árvores secas, vimos uma casa cujo amarelo das paredes perdia a cor. Era pequena e as folhas das mangueiras ao redor criavam um caminho escuso e formidável, com flores silvestres, borboletas e pirilampos.
— Colham as flores — ordenou o homem, ajoelhando-se com dificuldade e tocando os fundos da caixa do teatro de papel.
Viramos as costas focando o olhar apenas nas flores. Justamente a mais bela — de um aroma estonteante e de pétalas azuis como o céu do verão — foi arrancada pelas mãos do menino dos olhos brilhantes, que riu enquanto me observava surpreso e sem ação. Virou as costas para mim ainda gargalhando, e o peso da rocha mais próxima pendeu sobre o seu pescoço.
Não me lembro de mais nada além do negrume.
Tive dificuldade em abrir os olhos devido à luz minguada da lâmpada que pendia sobre a minha cabeça. Ao meu lado havia uma criança de cabelos encaracolados e pele alva; estava viva, mas sua respiração acelerada e as moscas pousadas sobre seus lábios indicavam que não por muito tempo.
Não consegui me erguer. Uma das minhas pernas se contraía com uma dor aguda que se estendia por todo o corpo, embora não encontrasse vestígios de sangue. Subi as escadas me arrastando pelos degraus enquanto soluçava por conta da dor.
A porta estava aberta. Com uma das mãos a empurrei lentamente e continuei a me arrastar pela cozinha apodrecida. Havia algo fervendo no fogão, numa panela escura e imunda — avistei quando me suspendi na pia a fim de me erguer. O odor aparentemente vinha da geladeira, mas tratei de me apressar antes que meu estômago devolvesse o macarrão instantâneo que fiz de almoço.
Manco e choroso, ultrapassei um corredor. Eu tremulava quem sabe de frio ou de medo. O velho do teatro de papel estava sentado numa poltrona, de costas para mim. À sua frente, vendado e estendido no assoalho, o menino de antes. Soluçava enquanto mordia os próprios lábios até sangrarem. Suas mãos estavam amarradas nas costas como um porco. Eu queria rir e não consegui suprimir um sorriso glorioso. Parecia cômica a ideia do seu sorriso debochado se transformar numa expressão de pavor.
—... então se é assim eu o chamarei de Pedro — começou o velho, deitando a cabeça no punho cerrado. — Não desejei nenhuma daquelas crianças. Estão no quarto, dormindo. Em alguns dias os pais os encontrarão, inevitavelmente, mas você... sentou no meu colo quando eu estava vestido como um velho gordo. Era natal. Nunca vou esquecer do que me pediu, Pedro. Você se lembra bem disso, não é? Pediu para desaparecer depois que seus pais morressem. Ah, eu entendo isso muito melhor do que imagina. Também desejei isso. Por muito tempo supliquei por qualquer milagre possível para tirar de mim aquele fardo cruel. Na minha infância e adolescência eu vi meus pais se torturarem, se cortarem e se despirem na minha frente, alcoolizados com a própria loucura. Agiam como animais que eram. Eles me pediam para morrer, mas eu fui egoísta demais para acatar esse pedido. Se foram no meu lugar e nem precisei mata-los; eles mesmos fizeram isso. Como ocorreu? Bem, foi depois que Heitor desapareceu, meu irmão, a esperança da família. Era um bebê chorão e nojento e mesmo assim todos o amavam; estava unindo meus pais novamente e de repente parecemos uma família normal. Eu o devorei certa noite. Depois de meses descobriram que ele estava no fundo do cano de descarga — e gargalhou baixinho enquanto tentava prosseguir. — Tudo mudou num dia como esse. Ainda posso me lembrar da melodia circense.
Os prantos do menino se uniram aos seus gritos de pavor repentinos, que apenas cessaram quando as mãos do velho o sufocaram até que ele perdesse a cor e a vida. Em seguida ergueu-se devagar sem conseguir retirar as mãos grosseiras do pescoço frágil do menino, que foi arrastado e atirado sobre a poltrona.
Então o velho me viu ali, atônito, encarando sua expressão animal. A curva da maçã de seu rosto estava manchada com sangue. Permaneci calado, engolindo a seco suas palavras roucas.
— O que está olhando? — indagou em voz alta, gargalhando em seguida, mal suportando o peso do próprio corpo. — Não me olhe como se não soubesse do que estou falando. Vá. A outra menina é toda sua; ao contrário desse porco imundo ela é doce e delicada. Suje-a. Um dia ela será como as outras.
Tremi e senti o sangue escorrer em minhas mãos. Não era meu, pois não sentia mais dor; nem minha perna latejava mais e, talvez, aquela vitela tenha sido a mais doce que já comi na minha vida. Uma pena que, ao descer as escadas, a menina dos cabelos encaracolados pareça ter sido só outra ilusão. Contudo, o circo ainda estava na cidade e aquele sino ecoando nas nuvens opacas ainda chamava crianças solitárias até mim. Ninguém sentiu falta delas. Na verdade, esse foi o erro: crer que não sentiriam falta.
Quando não se sabe a diferença entre a verdade e a mentira, tudo se torna uma grande mentira, e a maior delas fui eu mesmo. O demônio do ciúme me acolheu e com os anos se metamorfoseou no diabo da insanidade. Era eu e ele, ele e eu.
Aquele dia de chuva enganaria qualquer um que pensasse que seria só mais um dia, porque foi. Para quase todos foi mais um dia comum de inverno com sinos tocando no final da alameda e crianças sendo devoradas por homens maculados pela sua própria natureza.

E apenas isso.

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1 comentários:

  1. Oi Victor, tudo bem? Eu nunca tinha lido na autora, mas gostei da escrita dela, o conto é muito bom e em poucas linhas nos prende até o final! Curti!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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