In Eduarda Graciano livros resenha

O Escultor, Scott McCloud.


  "David vai dar sua vida pela arte. Literalmente.
  Após um acordo com a Morte, o jovem escultor obtém seu desejo de infância: esculpir o que quiser com as mãos nuas. Mas agora que só lhe restam 200 dias de vida, decidir o que criar é mais difícil do que ele pensava. Descobrir o amor de sua vida na penúltima hora não ajuda em nada.
  Uma história sobre paixão que supera os limites da razão; sobre o compasso frenético e desajeitado do amor jovem; e um retrato belíssimo das ruas da cidade mais fantástica do mundo. Daqueles momentos pequenos, queridos e humanos da vida cotidiana... e das forças enormes que revolvem logo abaixo da superfície." The Sculptor  496 Páginas – Jupati Books – Scott McCloud – Ano 2015.

                 
                                           
 
                                                                   


  David Smith é um rapaz que deseja ser mais do que esse nome tão comum. Ele é um escultor que está esquecido no mercado e não vê mais sentido na vida.

  Certo dia, ele se encontra com a própria Morte. O Ceifador, que assumiu a forma de seu tio avô Harry, faz uma proposta: David terá à sua disposição a habilidade de transformar qualquer material com as próprias mãos. Em troca, o Ceifador pede a única coisa esperada: sua própria vida. A partir do momento em que aceitar o acordo, ele terá apenas 200 dias para viver.

 " - Eu não tenho medo de morrer, Harry.
  - Com o tempo vem."



  
  David é solitário e deprimido. Ele perdeu toda a família (o pai, a mãe e a irmã, um de cada vez) e quase não tem amigos. Seu melhor amigo, Ollie, faz de tudo para ajudá-lo, mas ele e David se desentendem bastante, sobretudo por conta do namorado de Ollie, Finn, que David sabe que está apenas usando-o.

  Sem rumo, dinheiro e perspectivas, um dia ele encontra o tio-avô - morto há anos - e este se apresenta como sendo o Ceifador. Os dois conversam, tomam café, jogam xadrez (O Sétimo Selo mandou lembranças), e ele lhe explica como funcionam as coisas "do lado de lá". Assim, David tem diante de si uma proposta: poderá criar o que quiser e sair da crise (criativa, financeira e de identidade) que o assola, mas em troca terá apenas 200 dias para viver. Tudo o que ele quer é ter pelo que viver, ainda que o tempo seja limitado... então, sem pensar duas vezes, aceita o acordo e passa a descobrir o que pode fazer para mudar o mundo através de arte com o tempo que lhe resta.

  David só não esperava que, a partir de uma performance da qual sem saber faz parte - "O Triste" era uma performance de intervenção onde ele era o personagem principal - Meg cruzaria seu caminho e bagunçaria todos os seus sentimentos.

   " - Viu a neve hoje de manhã? O sol fez ela brilhar como um palácio de cristal... [...] Ficou tudo diferente, Harry. E tudo por causa dela."




  Um protagonista deprimido resultou mesmo numa leitura deprê. David é um pessimista convicto e toda vez que ele se sente motivado parece que alguma coisa dá errado. Por vezes ele diz achar que é vítima duma maldição. E é o que parece mesmo. Pra completar, ele encontra a Meg, que é doida varrida - inconsequente e irresponsável, como ela mesma aponta; e que com certeza tem transtornos psicológicos também (o livro deixa claro o fato de ela precisar de remédios, mas não temos seu diagnóstico).

  Achei que o romance deu um tom meloso (o que pra alguns deixa mais deprê) à obra e talvez não fosse isso eu teria ficado mais triste lendo. Não me identifiquei muito com nenhum dos protagonistas (apesar da melancolia) mas gostei muito do final da história. (Que vocês vão ter que ler pra descobrir se é feliz ou não.)

  "- Eu sempre achei que a Morte vence no final, sabia? Mas isso não é verdade, é? Não importa o quanto você malha a gente, a vida sempre descobre um jeito de crescer."

  Em se tratando de uma HQ não posso deixar de lado as ilustrações: elas foram feitas pelo próprio autor e são magníficas! Monocromáticas, é verdade, com certeza de propósito. Não faria sentido esse livro todo colorido. Mesmo assim conseguimos apreciar a beleza da cidade de Nova York nos traços detalhados e caprichosos de McCloud.

  Ao final, os questionamentos que ficam são: Qual a importância real da arte? Ela é mesmo subjetiva?
  E vale a pena correr os riscos da decepção para ir atrás dos grandes sonhos? Ou devemos nos contentar com a simplicidade de ser "só mais um" dentre os seres humanos?

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A Indomável Sofia, Georgette Heyer.


  "Sofia Stanton-Lacy é alegre, impulsiva e de uma franqueza desconcertante, características que não combinam com o que se espera de uma mulher em sua posição na sociedade londrina do início do século XIX. Educada durante as viagens de seu pai, órfã de mãe, ela chega à casa de sua tia em Berkeley Square para derrubar as convenções e surpreender a todos com seus modos independentes e sua língua afiada. E Sophy parece ter chegado no momento certo: seus primos estão com muitos problemas. 
  O tirânico Charles está noivo de uma jovem tão maçante quanto ele, já Cecilia está apaixonada por um poeta, e Hubert tem sérios problemas financeiros. A prima recém-chegada decide então ajudar a todos com sua determinação e impetuosidade, e acaba enfrentando agiotas, roubando os cavalos de seu primo e atirando de raspão em um honrado cavalheiro. Embora sejam sempre mirabolantes e arriscados, seus planos sempre dão certo e tudo parece estar sob seu controle. O que ela não espera, porém, é que seu primo Charles, que aparentemente não vê a hora de arrumar um marido para ela, de repente passa a enxergá-la com outros olhos..." The Grand Sophy  406 Páginas – Record – Georgette Heyer – Ano 2016 (Originalmente em 1950).

                   
                                             
   
                                                                 


  Filha de um diplomata viúvo, a jovem Sofia Stanton-Lacy (que prefere ser chamada de Sophy) não é nem um pouco convencional para uma jovem dama da alta sociedade no começo do século XIX.
 Acostumda a ser carregada pelo pai em suas viagens pelo mundo, Sophy já viu e viveu muito mais do que qualquer garota convencional.

 Sir Horace, o pai, viaja até Berkeley Square, a propriedade de seu cunhado em Londres, e pede à sua irmã que receba sua doce e obediente filha enquanto ele viaja para a América do Sul à negócios.
  Sem ter como recusar o pedido do irmão, Lady Ombersley aceita receber a sobrinha que ela há muito não vê. Sua única preocupação é que seu primogênito, Charles, que é quem cuida de todos os assuntos relacionados à propriedade e ao que sobrou da fortuna da família (o pai quase os levara à falência em apostas), se oponha a vinda da garota, que implicará numa mudança na rotina de todos.

  E que mudança! Qual não é a surpresa dos Rivenhall, ao descobrir que Sofia não tem nada de doce, ingênua e obediente? A garota não tem papas na língua e não aceita que lhe digam o que fazer. Aparentemente dará muito trabalho... e Charles teme que não encontre ninguém disposto a casar com uma figura dessas!

 " [...] A pobre Cecy não consegue tirar uma soneca durante o dia, assim decidimos que ela não devia passar a noite acordada.
    - Quer dizer que você decidiu - disse ele."



  
  Pensa numa personagem impertinente, abusada e intrometida? Assim é a nossa protagonista. 
  Sophy tem aquela mania de fazer tudo exatamente ao contrário do que é aconselhada. Eu comecei a ler o livro achando-a um tanto estressante.

 Ela é o centro das atenções por onde quer que passe. Não só por sua estatura - a garota é bem alta, mas por seus modos extrovertidos e por sua vontade de ajudar todos a sua volta. Conforme vamos conhecendo-na melhor, percebemos o quão grande é seu coração. Coração esse que, para desespero de seu primo - que tem total intenção de encontrar um noivo para a moça, não tem o menor interesse por parte de sua dona em ser ocupado.




  Alerta de livro xuxu! 

  Eu me encantei por esse livro por conta da sinopse (além dessa capa linda, claro) e tive de ir correndo ler. Não lembro se já mencionei aqui, mas AMO um romance cão e gato. Existe uma animosidade entre Sofia e Charles desde o começo, já que ele é um belo dum ranzinza que gosta de tudo certinho e sua prima não conhece os limites da discrição. Claro que, quando ela descobre o ponto fraco dele, aproveita para importuná-lo. E é assim que ela vai desarmando ele.

  "A voz de Sophy cessou; ela ergueu os olhos e encontrou os do Sr. Rivenhall. Ele a fitava fixamente, como se uma ideia, ofuscante em sua novidade, lhe tivesse ocorrido."

  Quem espera um romance escandaloso e sensual já pode dar meia volta. "A Indomável Sofia" foi escrito nos anos 50, portanto não existem cenas tórridas de paixão (à la Julia Quinn, Lisa Kleypas e derivados) durante a leitura. O romance é discreto e acontece de forma até imperceptível para os menos atentos.

  Deixando um pouco o romance de lado, o foco do livro é mesmo a Sophy... que rouba carruagens, discute com desconhecidos e até atira num homem. Um retrato de sua coragem e inconveniência (haha) entregue de forma leve e bem-humorada.

  Recomendo pra qualquer um que aprecie uma boa história, bastante dinâmica e que arranca risadas e suspiros!

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O café, uma via de mão dupla.



Está estampado no nome do blog o apreço que tenho pelo café, sendo ele uma das bebidas indispensáveis na minha vida, pois em um dia normal ou estressante a minha boa e velha caneca de café sempre estará presente - alguns dizem que eu tomo que nem coca cola pelo fato do copo ser sempre cheio - e eu nunca dispenso um bom cafezinho. Porém parei para pensar, seria o café uma via de mão dupla? Porque temos iminentes alguns benefícios, mas e os seus malefícios são externados com eficácia?


Muitos conhecem o café como uma bebida revigorante e essencial para os cafés da manhã, mas poucos sabem que o café teve origem na Etiópia, em 1.000 d.C, e era utilizado por pastores apenas para alimentação dos rebanhos durante longas viagens, logo depois um pastor da Absínia chamado Kaldi resolveu levar o fruto que estimulava os rebanhos a um monge que fez uma infusão e logo perceberam sua eficácia.


 Digamos que ao partimos da linha de raciocínio que o café é uma via de mão dupla devemos analisar os seus benefícios e malefícios ao ser humano. E claro quem o toma desregradamente terá algumas complicações.


Segundo o Dr. Charles Schwambach “O consumo moderado de café (duas a quatro xícaras ao dia) exerce efeito na prevenção de doenças como depressão, cirrose hepática, doença de Alzheimer, asma, diabetes tipo 2, cálculos biliares, câncer de intestino, alguns tipos de dores de cabeça, doença de Parkinson. Previne o consumo de drogas e álcool. Melhora a atenção e desempenho mental. Contém vitaminas, sais minerais, antioxidantes que combatem os radicais livres e cafeína, a principal amina ativa do café, que é absorvida rapidamente e chega ao cérebro em cerca de 20 minutos após a ingestão, onde age aumentando a influência do neurotransmissor dopamina”.


Como você pode ver são diversos os benefícios, e até dá um alívio a nós que não ficamos sem tomar, mas devemos sempre manter a vigilância sobre a quantidade que tomamos, pois pode ser que nos gere alguns problemas.


Os malefícios por sua vez, trazem um certo senso de cuidado para aqueles que ingerem quantidades maiores que seis xícaras, ou seja, do consumo exagerado podendo gerar o enfraquecimento do organismo, perda de vitaminas e minerais, e também o efeito diurético - que é o aumento da eliminação de sódio e água pela urina.


Claro que sobre o assunto temos muito mais o que discutir, porém a informação já basta para ser divulgada e também para nós amantes de uma boa xícara de café, tomarmos cuidado com a nossa saúde acima de tudo.
 


Fontes:

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Uma Conversa sobre Saudade.

imagem: www.motivacaoefoco.com.br

Saudade é um sentimento universal, presente em todas as línguas, nações e corações. O termo tende a ter uma relação de primeiro grau com nossas memórias trazendo a tona experiências, momentos, pessoas… e o que nos é gerado é nostalgia que na maioria das vezes resulta em tristeza.

Saudade segundo o site Significados, tem sua origem do latim e significa solidão, mas pode ser definida como “distância ou ausência de algo ou alguém”.

Hoje para algumas famílias é um dia de relembrar momentos e matar um pouco a saudade da memória daqueles que já se foram. Talvez você não goste de relembrar, mas às vezes necessitamos enfrentar para nos libertar da tristeza que repentinamente aparece em nossos corações.

Afinal a saudade gera doença. Me recordo de um tio que foi morar em outra cidade e acabou não suportando a saudade e faleceu, ele era tão querido. É importante saber que quando a saudade aperta necessitamos tomar uma ação porque de um minuto para o outro pode ser tarde demais.

Lembra qual foi a memória mais feliz com aquele ente, ou amigo? Você por acaso se lembra de quais eram as características da pessoa ou até mesmo as manias que você mais gostava?

As lembranças nunca se apagam e a saudade não perde o sustento se cultivamos da melhor maneira possível, ainda que doa. Recebemos um depoimento que ilustra a saudade sobre a ausência de um alguém muito importante.

“Eu o amo, e disso eu não tenho dúvidas. Cresci sem tê-lo presente na minha vida, e só eu sei o quanto isso me machucou, e vem machucando até hoje. Lembro que, nas apresentações de dia dos pais, enquanto eu cantava a música ensaiada por várias semanas, olhava para o portão da escola e esperava ansiosamente para ele aparecer. O que não aconteceu em nenhum dos meus anos letivos.
Sinto falta dele, mas entendo que as circunstâncias da vida o fizeram mudar de cidade e se afastar de mim. Hoje, quando temos a oportunidade de nos ver, damos aquele abraço apertado, mas não é a mesma coisa. Ele é meu pai, eu sei, mas às vezes é como se ele fosse um estranho para mim. Uma pessoa totalmente nova, que não conhece as coisas básicas na minha vida, como a minha idade.
A saudade existe, e ela dói. A falta que sinto de ter um pai presente, chega a corroer meu coração e me faz pensar que nunca, em hipótese alguma, eu quero que alguém ao meu redor sinta isso”. Nicoli Maia

Com fins de desabafo e conversas esporádicas sobre saudade criamos o formulário abaixo para você que necessita falar com alguém sobre sua saudade. Sinta-se a vontade, pois o sigilo é absoluto.


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Psicose, Robert Bloch.


"Psicose, de Robert Bloch, foi publicado originalmente em 1959, livremente inspirado no caso do assassino de Wisconsin, Ed Gein. O protagonista Norman Bates, assim como Gein, era um assassino solitário que vivia em uma localidade rural isolada, teve uma mãe dominadora, construiu um santuário para ela em um quarto e se vestia com roupas femininas. Em 'Psicose', Bloch antecipou e prenunciou a explosão do fenômeno serial killer do final dos anos 1980 e começo dos 1990. O livro, assim com o filme de Hitchcock, tornou-se um ícone do horror." Psycho  240 Páginas – DarkSide Books – Robert Bloch – Ano 2013 (Originalmente em 1959).

                     
                                                      
     
                                                                 


  Mary Crane está chegando aos 30 anos e tudo o que ela mais quer é que o noivo Sam Loomis quite suas dívidas para que eles possam enfim ser felizes para sempre na pacata cidade de Fairville, onde ele mora.

 A oportunidade se mostra, tentadora, na forma dos quarenta mil dólares que ela precisa depositar no banco a pedido do chefe. Num lapso de loucura, Mary pega o dinheiro e foge para encontrar o noivo.

 No caminho, após dezoito horas dirigindo, ela se perde devido ao cansaço e é obrigada a fazer uma parada no pequeno Motel Bates, bem menos estranho e assustador do que seu contido gerente, Norman Bates. 

 " - Você não pode fumar. Você não pode beber. Não pode sair com garotas. O que faz além de dirigir o motel e cuidar de sua mãe?"



  
  Norman gerencia o motel e mora numa casa atrás dele com sua doente mãe. O autor nos dá vislumbres de lembranças dele e das conversas entre os dois; de cara notamos o quão autoritária e repressora a decrépita senhora é. Norman se sente sufocado!

  A Mãe (sempre em maiúsculo) aparentemente tem muita influência no comportamento do filho e a pobre Mary Crane conhecerá de perto a cólera de uma mãe que não quer outra mulher na vida de seu "garotinho". Tão de perto quanto ela e seus milhares de dólares conhecerão o fundo do pântano próximo ao motel...


  Espero que não se importem de eu revelar isso, já que esse livro tem quase 60 anos e, creio eu, todo mundo viu o filme, né? Bom, a Mary realmente mal passa da página 50 e a história segue acompanhando sua irmã, seu noivo e o detetive Arbogast - contratado pela agência onde ela trabalhava - procurando por pistas da moça.


 Lila, a irmã, é quem está mais determinada e impaciente para encontrá-la, pois tem certeza que ela está em perigo. Sam também está preocupado e tentando não demonstrar para tranquilizar a cunhada, mas ele tenta ser mais calmo e racional, confiando no detetive para encontrar Mary. 

  É muito legal conhecer a história do retraído Norman e de sua misteriosa mãe enquanto acompanhamos a busca pela garota e pelos quarenta mil dólares desaparecidos. Especialmente quando já sabemos o que aconteceu. 

  Ou talvez não saibamos... as paredes da grande e velha casa atrás do Motel Bates guardam alguns segredos. 


A gente baba nessa capa, sim ou claro?


  Como eu amo um bom plot twist! 

  Assisti "Psicose" há anos e não tenho certeza, mas acho que eu não esperava aquele final (não lembro se já tinham me contado). Desde então se tornou um dos meus filmes preferidos.

  
(Paramount Pictures, 1960)


  Eu não sou da opinião de que o livro é sempre melhor. Há casos e casos. Mas Psicose é sim o caso. A história é envolvente e te faz roer as unhas. Eu, que já estou cansada de saber o final, senti o suspense.

  " - Nós não somos tão lúcidos quanto fingimos ser."

  Escolhi esse livro magnífico por conta do Dia das Bruxas e devorei ele num único dia. Há muito tempo não pegava um livro e terminava numa "sentada". Acabei revendo o filme no dia seguinte mesmo e não é que, exceto pela genialidade inquestionável no que diz respeito à cinematografia, o livro é mesmo melhor? Só uma pena ser tão curto.

   Já quero ler tudo do Robert Bloch (1917-1994), porque descobri que ele escreveu mais de 30 romances. "Psicose" é o mais famoso, claro, por conta da adaptação (e agora revisitado na série Bates Motel) e foi inspirado na história real do serial killer americano Ed Gein; a mesma história que inspirou "O Massacre da Serra Elétrica".

  Bom, fica aí a dica pra quem curte um bom suspense. Eu não sei porque demorei tanto pra ler esse livro. Não cometam esse erro!

 Feliz Dia das Bruxas e lembrem-se: as aparências enganam.
  

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Elegias do Fim do Mundo, Fernanda Scheffler.

Neste especial de Halloween, trouxe a vocês - com autorização de Fernanda Scheffler, Diretora Administrativa da Revista Entrelinhas - um de seus contos e como o tema é sobre mistério e suspense pensamos que talvez vocês possam gostar de ter esta experiência.

Para você que quer conhecer mais o trabalho de Fernanda acesse sua conta no WattPad clicando aqui.



Aquele dia de chuva enganaria qualquer um que pensasse que seria só mais um dia. Ou, talvez, de fato fosse. Para muitos foi um dia perfeito para esticar as pernas sobre o tampo da mesinha de centro e assistir a um programa qualquer na televisão. O domingo daquele inverno estava aconchegante e ao mesmo tempo brilhante. As nuvens cinzentas flutuando na abóbada refletiam a luz do sol que se escondia sobre elas e funcionavam como espelhos para aquele som de sinos que ecoava de algum lugar da Alameda Andrade.
As outras crianças estavam alvoroçadas e provavelmente batiam os pés nas portas dos átrios. A pirraça infantil era uma exigência pouco sutil, pois queriam, assim como eu, ir ao circo. Nunca soubemos como ele chegou naquela cidadezinha flutuante às margens do Atlântico, só sabíamos que o vai e vem da água negra os trouxe até Lyonesse.
A Praça Circular fora cedida para que fincassem as toras e erguessem aquela grande tenda listrada e colorida. Depois foram as bandeirinhas e as barracas de doces, espalhadas pela trilha que entrecortava a praça. Nada me chamou mais a atenção do que aquele teatrinho de papel, esquecido entre duas árvores esparsas, pouco distante de um palhaço icônico que distribuía balões e sorrisos.
— Não se afaste muito, Ben — salientou meu pai, pouco satisfeito com o passeio. — Vamos nos encontrar em uma hora aqui neste mesmo lugar, próximo aos balões. Esteja aqui, ouviu?
Assenti com a cabeça diante de seu tom imperativo, virando as costas e seguindo sem olhar pra trás. Sentia seu olhar pousando sobre mim e quase que por mágica ecoava no meu ouvido as palavras traiçoeiras que ele diria assim que voltássemos para casa.
O álcool o transformava em outro homem, ou, talvez, o revelasse. Minha mãe já não se importava com a bebida ou com as agressões; por vezes vi seu sorriso de prazer quando era puxada pelos cabelos e recebia palmadas enquanto despida. Transformou a dor e o medo em uma forma de sentir prazer, já que não tinha outra escolha.
Na trilha de pedras descoloridas passavam crianças para lá e para cá, algumas em grupo, de mãos dadas com os irmãos ou com os pais, e outras sozinhas. Não se divertiam menos, mas eu conseguia ver uma confusão reveladora que, de alguma forma, as carregavam até o teatro. Sentavam na relva com as pernas cruzadas e ouviam o que aquele homem apático dizia. O velho mal abria a boca para falar; seus lábios cansados se moviam lentamente enquanto suas mãos giravam uma alavanca de madeira. Daí as figuras de papel se moviam na tela uma melodia baixa ressoava.
Constrangido, eu ficava distante os vigiando, suspenso atrás de uma árvore. Sem motivo aparente, um dos meninos girou o pescoço e olhou discretamente para mim. Sorriu. Seu olhar de acalento me enfeitiçou de uma maneira incomum e quando vi estava sentado ao seu lado, mas meus olhos estavam pregados nas figuras dançantes.
A voz tímida do velho tinha como plano de fundo aquele sino circense que chamava a cidade para a praça. Ele contava a história de um homem muito bom que, acometido pelo mal do ciúme, perdeu-se no mundo, vagando atrás de alguém que pudesse quebrar sua maldição. Certo dia encontrou uma cigana misteriosa que roubou seu coração, agora dividido entre o ciúme e o amor. A mulher não o amou como ele imaginava que amaria e, por isso, o ciúme novamente tomou conta do homem bom, que, possuído por um demônio, devorou a cigana.
— Então o homem bom não era bom? — questionou uma criança sentada na fileira ao lado. — Ele fez mal a alguém inocente, então não pode ser um homem bom de verdade.
— E por que não? — replicou o velho, sorrindo cinicamente. — Um homem que faz o bem a todos, mas se encontra perdido num de seus defeitos puramente humanos ainda assim é bom, apenas imperfeito.
— E o que aconteceu depois? — perguntei.
— Por que você mesmo não pergunta ao homem? Acreditem se quiser, mas ele existe e mora aqui. É provável que algum de vocês já o tenham visto no mercado ou do outro lado da calçada.
As crianças se entreolharam e se ergueram junto com o velho. Ele empurrava a caixa do teatro de papel enquanto girava a alavanca gasta, desaparecendo atrás de uma árvore sufocada por liana. Eu ouvia apenas uma melodia e o seu cantarolar funesto. As cinco crianças seguiram o caminho em fila e apenas o menino dos olhos brilhantes e eu restamos.
— E você? Não vai? — perguntou; dei de ombros como resposta, desviando o olhar. — Está com medo?
O tom carinhoso do menino se converteu em um ar de superioridade e zombaria. Bufei e trespassei seu caminho. Lá na frente as outras crianças saltavam alguns galhos e coçavam pernas e braços devido às daninhas que encontravam. Às vezes subiam em banquinhos de pedra e saltavam, e suas risadas infantis se uniam à música enlouquecedora.
Eu já não sabia mais onde estava e não conseguia ouvir os sinos do circo. Saímos do bosque e cessamos o caminho em uma rua deserta onde uma bruma cinza sobrevoava o asfalto. Uma placa na curva mais próxima me indicava: rua Oliveira. De qualquer forma, não fazia diferença saber o nome daquela rua, pois ainda não sabia onde estava.
O homem cessou o caminho em frente a uma cerca viva. Mal percebemos ser um portão de metal, que foi entreaberto com facilidade para que pudéssemos adentrar o local. No fim do jardim de árvores secas, vimos uma casa cujo amarelo das paredes perdia a cor. Era pequena e as folhas das mangueiras ao redor criavam um caminho escuso e formidável, com flores silvestres, borboletas e pirilampos.
— Colham as flores — ordenou o homem, ajoelhando-se com dificuldade e tocando os fundos da caixa do teatro de papel.
Viramos as costas focando o olhar apenas nas flores. Justamente a mais bela — de um aroma estonteante e de pétalas azuis como o céu do verão — foi arrancada pelas mãos do menino dos olhos brilhantes, que riu enquanto me observava surpreso e sem ação. Virou as costas para mim ainda gargalhando, e o peso da rocha mais próxima pendeu sobre o seu pescoço.
Não me lembro de mais nada além do negrume.
Tive dificuldade em abrir os olhos devido à luz minguada da lâmpada que pendia sobre a minha cabeça. Ao meu lado havia uma criança de cabelos encaracolados e pele alva; estava viva, mas sua respiração acelerada e as moscas pousadas sobre seus lábios indicavam que não por muito tempo.
Não consegui me erguer. Uma das minhas pernas se contraía com uma dor aguda que se estendia por todo o corpo, embora não encontrasse vestígios de sangue. Subi as escadas me arrastando pelos degraus enquanto soluçava por conta da dor.
A porta estava aberta. Com uma das mãos a empurrei lentamente e continuei a me arrastar pela cozinha apodrecida. Havia algo fervendo no fogão, numa panela escura e imunda — avistei quando me suspendi na pia a fim de me erguer. O odor aparentemente vinha da geladeira, mas tratei de me apressar antes que meu estômago devolvesse o macarrão instantâneo que fiz de almoço.
Manco e choroso, ultrapassei um corredor. Eu tremulava quem sabe de frio ou de medo. O velho do teatro de papel estava sentado numa poltrona, de costas para mim. À sua frente, vendado e estendido no assoalho, o menino de antes. Soluçava enquanto mordia os próprios lábios até sangrarem. Suas mãos estavam amarradas nas costas como um porco. Eu queria rir e não consegui suprimir um sorriso glorioso. Parecia cômica a ideia do seu sorriso debochado se transformar numa expressão de pavor.
—... então se é assim eu o chamarei de Pedro — começou o velho, deitando a cabeça no punho cerrado. — Não desejei nenhuma daquelas crianças. Estão no quarto, dormindo. Em alguns dias os pais os encontrarão, inevitavelmente, mas você... sentou no meu colo quando eu estava vestido como um velho gordo. Era natal. Nunca vou esquecer do que me pediu, Pedro. Você se lembra bem disso, não é? Pediu para desaparecer depois que seus pais morressem. Ah, eu entendo isso muito melhor do que imagina. Também desejei isso. Por muito tempo supliquei por qualquer milagre possível para tirar de mim aquele fardo cruel. Na minha infância e adolescência eu vi meus pais se torturarem, se cortarem e se despirem na minha frente, alcoolizados com a própria loucura. Agiam como animais que eram. Eles me pediam para morrer, mas eu fui egoísta demais para acatar esse pedido. Se foram no meu lugar e nem precisei mata-los; eles mesmos fizeram isso. Como ocorreu? Bem, foi depois que Heitor desapareceu, meu irmão, a esperança da família. Era um bebê chorão e nojento e mesmo assim todos o amavam; estava unindo meus pais novamente e de repente parecemos uma família normal. Eu o devorei certa noite. Depois de meses descobriram que ele estava no fundo do cano de descarga — e gargalhou baixinho enquanto tentava prosseguir. — Tudo mudou num dia como esse. Ainda posso me lembrar da melodia circense.
Os prantos do menino se uniram aos seus gritos de pavor repentinos, que apenas cessaram quando as mãos do velho o sufocaram até que ele perdesse a cor e a vida. Em seguida ergueu-se devagar sem conseguir retirar as mãos grosseiras do pescoço frágil do menino, que foi arrastado e atirado sobre a poltrona.
Então o velho me viu ali, atônito, encarando sua expressão animal. A curva da maçã de seu rosto estava manchada com sangue. Permaneci calado, engolindo a seco suas palavras roucas.
— O que está olhando? — indagou em voz alta, gargalhando em seguida, mal suportando o peso do próprio corpo. — Não me olhe como se não soubesse do que estou falando. Vá. A outra menina é toda sua; ao contrário desse porco imundo ela é doce e delicada. Suje-a. Um dia ela será como as outras.
Tremi e senti o sangue escorrer em minhas mãos. Não era meu, pois não sentia mais dor; nem minha perna latejava mais e, talvez, aquela vitela tenha sido a mais doce que já comi na minha vida. Uma pena que, ao descer as escadas, a menina dos cabelos encaracolados pareça ter sido só outra ilusão. Contudo, o circo ainda estava na cidade e aquele sino ecoando nas nuvens opacas ainda chamava crianças solitárias até mim. Ninguém sentiu falta delas. Na verdade, esse foi o erro: crer que não sentiriam falta.
Quando não se sabe a diferença entre a verdade e a mentira, tudo se torna uma grande mentira, e a maior delas fui eu mesmo. O demônio do ciúme me acolheu e com os anos se metamorfoseou no diabo da insanidade. Era eu e ele, ele e eu.
Aquele dia de chuva enganaria qualquer um que pensasse que seria só mais um dia, porque foi. Para quase todos foi mais um dia comum de inverno com sinos tocando no final da alameda e crianças sendo devoradas por homens maculados pela sua própria natureza.

E apenas isso.

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In Eduarda Graciano livros resenha

Anne of the Island, L. M. Montgomery.


  "New adventures lie ahead as Anne Shirley packs her bags, waves good-bye to childhood, and heads for Redmond College. With old friend Prissy Grant waiting in the bustling city of Kingsport and frivolous new pal Philippa Gordon at her side, Anne tucks her memories of rural Avonlea away and discovers life on her own terms, filled with surprises...including a marriage proposal from the worst fellow imaginable, the sale of her very first story, and a tragedy that teaches her a painful lesson. But tears turn to laughter when Anne and her friends move into an old cottage and an ornery black cat steals her heart. Little does Anne know that handsome Gilbert Blythe wants to win her heart, too. Suddenly Anne must decide if she's ready for love..." Anne of the Island – 272 Páginas – Bantam Books – L. M. Montgomery – Ano 1992 (Originalmente em 1915).

                     
                                               
     
                                                                 


  Atenção! Esse é o terceiro volume da série de livros "Anne de Green Gables" e essa resenha talvez contenha spoilers dos volumes anteriores (confira a resenha do último clicando aqui).

  Nossa heroína deixa oficialmente a infância para trás. No fundo, é claro, Anne sempre será a mesma. Mas agora suas responsabilidades cresceram, seu círculo de amigos cresceu e seus horizontes parecem fazer o mesmo.

  Anne deixa seu posto de professora na escola para finalmente cursar faculdade na cidade. Não só ela, como seus amigos de escola Gilbert Blythe, Charlie Sloane e Priscilla Grant. 

  Anne of the Island (Anne da Ilha, na tradução literal) segue os quatro anos em que Anne passa estudando em Redmond. Lá ela e "Prissy" conhecem Stella Maynard e Philippa Gordon, a "Phil", que eu achei bem doidinha. Cheguei à compará-la, na minha cabeça, com a Bridget Jones (do começo do séc. XX, claro) por conta da loucura hahaha. As quatro dividirão a mesma casa e vários momentos engraçados, como não poderia deixar de ser.

  " - We thought you were too shy, - said Anne.
   - No, no, dear. Shyness isn't among the many failings — or virtues — of Philippa Gordon — Phil for short. Do call me Phil right off. Now, what are your handles?"*
  
  Além disso, o amor está no ar não só para Diana Barry, que está noiva de Fred Wright. Anne parece ter encontrado seu príncipe encantado. E ele está entre os garotos que propõem casamento para ela nesse livro. Juro que eu não me lembro quantos pedidos Anne recebe. Uns três ou quatro, creio eu. Mas será que ela aceitará a proposta que sempre esperou? E qual das propostas é essa?




  Que. Livro. Fofo. 

  Os outros dois também são, é. Mas ainda que eu não tenha saído flutuando e suspirando pelos cantos como gostaria, esse traz o elemento romance mais forte. Ver a Anne com ciúmes e, melhor ainda, ver seu pretendente (aquele pelo qual torcemos) com ciúmes é fofo. A garota sofre, principalmente por conta de demorar tanto pra perceber seus sentimentos. No geral acho que podia ser mais doloroso, eu senti falta disso. Gosto de uma história doída. 

  No aspecto romance talvez falte um pouquinho de sofrimento mas no livro não falta. Anne perde duas amigas de infância: uma para o casamento (hahaha brincadeira. Essa ela não perde) e uma para a morte. E esse trecho é de partir o coração.

  Também há muitos momentos engraçados e o mais marcante se dá quando a ruivinha finalmente tem sua primeira estória publicada. Algumas alterações são feitas quando sua melhor amiga manda a estória para uma revista e Anne - dramática que só - quer morrer! Pensa até em desistir da carreira. Eu adoro quando ela é dramática à toa. hahahaha 





  Se tem uma coisa que eu acho perfeita nesses livros é que os títulos até agora trouxeram essa expansão do ambiente e dos horizontes da Anne. Ela chegou "Anne de Green Gables", virou "Anne de Avonlea" e agora é "Anne da Ilha". Isso dá uma impressão tão gostosa de grandeza, não é? Logo ela pode ser "Anne do Canadá", "Anne do Universo"... rs

  Ah! Aos curiosos: Marilla, a Sra. Lynde e os gêmeos (Davy está amadurecendo, até que enfim) vão muito bem, obrigada.

  O final desse livro é um amorzinho (já lhes adianto) e estou bem curiosa com o que vem por aí. Nem imagino que aventuras aguardam a nossa protagonista em "Anne of Windy Poplars" (também publicado como "Anne of Windy Willows"). 
  


  " [...] They walked home together in the dusk, crowned king and queen in the bridal realm of love [...]"**



  "Anne of the Island" ainda não chegou ao Brasil, mas isso não deve demorar. A Editora Pedrazul lançará em português todos os livros da série! Eba!!!

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 * " - Pensamos que você fosse muito tímida, - disse Anne.
   - Não, não, querida. A timidez não está entre os vários defeitos - ou qualidades - de Philippa Gordon - Phil pra facilitar. Já podem me chamar de Phil. Agora, quais os nomes de vocês?"
 ** " [...] Eles caminharam juntos para casa no crepúsculo, coroados rei e rainha do reino nupcial do amor [...] "

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